TEXTO DE ABERTURA DO EVENTO “BRASIL AGRADECE O CHILE – 5ª EDIÇÃO”

No último dia 10 de setembro, no Memorial do Rio Grande do Sul o Comitê organizou a 5ª edição do evento “Brasil Agradece ao Chile”. Uma homenagem ao país que abrigou diversos exilados brasileiros durante o regime civil-militar brasileiro. Abaixo o texto de abertura do evento escrito e lido por Paulo de Tarso Riccordi. Ao longo da semana vamos pubicar mais imagens e vídeos sobre o evento.

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Paulo de Tarso Riccordi

 

Fala de abertura do 5º BRASIL AGRADECE AO CHILE (em Porto Alegre, 10/9/2016), evento promovido pelo Comitê Carlos de Ré – da verdade e da justiça, para que brasileiros que estiveram exilados no Chile nos anos 70 agradeçam a acolhida e a proteção do governo Allende e do povo chileno.

Tentem imaginar esta cena:

Uma cidade sitiada há três dias, sob toque de recolher, patrulhada por jipes militares.

Quem é encontrado na rua, é sumariamente metralhado. Centenas de cadáveres nas calçadas provam que os milicos não estão blefando.

Então ouves o tutututututututu… Um helicóptero militar de combate em voo muito baixo, à altura das janelas dos edifícios, portas escancaradas exibindo as metralhadoras apontadas para os prédios.

Vês que jogam para a rua panfletos que, deduzes, devem ter o mesmo teor do que a voz marcial diz pelo alto-falante:

– Milhares de cubanos e de brasileiros entraram clandestinamente no Chile, para assassinar nossos irmãos. São terroristas. Se Ud sabe de algum que esteja escondido perto de sua casa, chame a polícia. Denuncie os terroristas cubanos e brasileiros.

E tu és brasileiro…

Quando o barulho se afasta e tu olhas pela janela para ver como estão as coisas na rua, da sacada do prédio do outro lado da rua, enfeitada com a bandeira chilena, teus vizinhos te apontam, ameaçadoramente, o dedo.

Já sabes que terás que abandonar rapidamente o apartamento, para fugir da certeza da batida policial e correr o risco nas sombras das ruas de Valparaíso, Viña del Mar, de uma Santiago ensangrentada.

………….

Com o fim da 2ª Guerra Mundial, as empresas norte-americanas trataram de ocupar economicamente a metade do mundo arbitrariamente atribuída aos Estados Unidos na partilha com a União Soviética.

Depois de destruírem a Europa, Hiroshima e Nagasaki, arrasado cidades inteiras e literalmente todas as indústrias e redes de distribuição de energia, os americanos jogaram seus capitais na “reconstrução” física dos territórios e na ocupação econômica por suas empresas.

A tal ponto isso foi efetivo que, apenas 30 anos depois, a primeira economia do mundo eram os Estados Unidos e a segunda, os capitais norte-americanos na Europa.

Por duas-três décadas a energia econômica e a política externa norte-americana esteve concentrada na ocupação da Europa e no Japão.

………………

E a África e a América do Sul? Deixados praticamente em liberdade de decisões, só podia dar merda. Os cucarachas acreditaram que poderiam autodeterminar-se e partiram para políticas nacionalistas.

A Argélia entrou em guerra com a França e conseguiu proclamar sua independência, em 1962.

Gamal Abdel Nasser assume a presidência no Egito em 1954, implementa forte política nacionalista, articula o pan-arabismo e nacionalizaCanal de Suez.

O líder socialista “Pandita” Nehru assume como primeiro-ministro da Índia, imediatamente após independizar-se da Grã Bretanha, em 1947.

No Brasil, Getúlio Vargas volta ao poder em 1950 com ideias nacionalistas e criação de empresas públicas para setores estratégicos, que eram ocupados pelo capital americano.

Na Argentina, Juan Domingo Perón e Evita governam de 1946 a 1955 nacionalizando bancos, ferrovias, o Banco Central, as companhias de eletricidade.

Aqui e ali, apoiados pelo movimento dos trabalhadores, beneficiários de suas políticas de direitos e renda.

Nessa esteira de governantes pelo menos progressistas, a esquerda e a organização sindical se fortalecem e pressionam por mais.

Ao final dos anos 50, o Terceiro Mundo se deseja autônomo, nacionalista, progressista, distribuindo renda dentro de seus países.

Até que, em 1959, um grupo de jovens obstinados derruba a ditadura Batista em Cuba e em pouco tempo se aproximam da União Soviética.

Acende o sinal de alerta. O terceiro mundo está se independizando e esquerdizando.  Os gringos não permitirão isso no “quintal dos Estados Unidos”.

Os capitais americanos continuam se dedicando a ocupar e explorar as inesgotáveis possibilidades de ganhos com a reconstrução da Europa e Japão e a aproximação com o Oriente Médio. Não se voltarão – ainda – para o terceiro mundo.

Então, cabe à  CIA dar um jeito nisso. E começa a sucessão de golpes de Estado na América do Sul. E a caçada aos nacionalistas, populistas, sindicalistas e “esquerdistas”. É a primeira das noites que se estenderiam por mais de 20 anos.

No Paraguai, Frederico Chávez, embora integrante do direitista Partido Colorado, adotava uma política nacionalista, independente dos órgãos financeiros internacionais. Foi derrubado por Alfredo Strossner em 1954.

O Brasil cai em 1964, Chile e Uruguai em 1973, Argentina, em 1976.

Quando o dia se pôs no continente, derrubaram vários presidentes eleitos pelo povo.

Naquele fim de tarde, em muitos países, os democratas resistiram, denunciaram, escreveram artigos e cartas aos jornais, contaram nos bares, explicaram em sala de aula, nas igrejas, defenderam nos tribunais os injustiçados. Deram-se os braços e foram às ruas.

Mas quando a noite se impôs, era dezembro, os assassinos saíram a caçar os que escreveram, os que ensinaram, os que predicaram, os que testemunharam, os que defenderam e também os que inocentaram.

Atropelaram os que estavam nas praças.

No fundo de suas covas úmidas e escuras, deram vazão à inumanidade autorizada pelos ditadores, rasgaram os corpos dos que resistiram à infâmia.

Logo já não lhes bastava. Foram buscar os culpados por pensar, por ouvir, por olhar.

Os que não foram retidos na rede do ódio e da tortura, abandonaram, às pressas, a casa, a escola, o trabalho, a família, os afetos, os amores.

Pularam a linha das fronteiras, levados por um rio que drenou a várzea do pensamento, da crítica, da juventude, da força, desaguando nos territórios vizinhos.

Milhares de brasileiros, levados por esse caudal, aportaram no Chile, onde foram acolhidos por um governo generoso, que lhes oferecia a possibilidade de viverem seus sonhos.

Mulheres e homens progressistas de todo lado lá encontraram trabalho, escola, abraços, amigos, amores. Se reencontraram com a vida. Puderam deixar de lado o codinome e reassumir sua identidade, ter documentos legítimos, andar pelas ruas, sem olhar para trás, sem se esgueirar por entre as pedras.

As famílias chilenas os acolheram em suas mesas, com comida quente, lençóis limpos, roupa lavada.

Até que o tsunami do fascismo alcançou também o Chile, fabricando terror, mortes, desaparecimentos, diáspora, exílio.

Mas até mesmo naquele novo anoitecer, os chilenos continuaram generosos.

Enquanto os helicópteros do terror incitavam a população a denunciar onde se escondiam os estrangeiros, muitas famílias chilenas correram o seríssimo risco de ocultá-los em suas próprias casas.

Naqueles longos anos de terror, foram assassinados mais de 60 mil chilenos.

123 brasileiros foram presos. Seis foram mortos lá.

Como disse o professor Franscisco Esteves, militante estudantil nos anos 70 e hoje diretor do Museo de los Derechos Humanos, em Santiago:

“Os brasileiros que lutaram e morreram no Chile, lutaram a nossa luta, o fizeram como chilenos. São nossos compatriotas”.

Um dos exilados brasileiros que muito teve a agradecer ao povo chileno, o poeta Thiago de Mello, escreveu, a propósito:

Faz escuro, mas eu canto,

porque a manhã vai chegar.

Vem ver comigo, companheiro,

a cor do mundo mudar.

 

Vale a pena não dormir para esperar

a cor do mundo mudar.

Já é madrugada,

vem o sol, quero alegria,

que é pra esquecer o que eu sofria.

 

Quem sofre fica acordado

defendendo o coração.

Vamos juntos, multidão,

trabalhar pela alegria.

Amanhã é um novo dia.

Por isso, e por muito mais, há cinco anos o Comitê Carlos de Ré da verdade e da justiça promove nos 11 de setembro – no Chile e, desta vez, aqui –  estes atos de reencontro entre brasileiros exilados e famílias chilenas com quem conviveram em dias tão belos e noites tão terríveis, na generosa terra do Chi-Chi-Chi-le-le-le.”

Por Paulo de Tarso Riccordi

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