NOTA PÚBLICA DA EQUIPE CLÍNICO-POLÍTICA RJ

Repetição?

Cumpre lembrar hoje os ensinamentos contidos nas centenas de depoimentos que, como terapeutas do Projeto Clínicas do Testemunho, da Comissão de Anistia, ouvimos de pessoas gravemente afetadas pelo Terror de Estado na época da Ditadura.

São valiosos testemunhos que lançam uma luz de esclarecimento – e também de alerta — diante dos complexos acontecimentos que dominam a vida social e política do país.

Ninguém melhor do que eles, que viveram o horror, para nos advertir sobre as extremas consequências que começam como “atos de exceção” do Estado Democrático de Direito, tal como se insinua hoje. Ninguém melhor do que eles, violentados por um poder acima da lei e da política, para lembrar a todos as diversas formas, sutis ou brutais, com que o Estado de Exceção se inicia.

Sem descuidar do fato de que para alguns setores da sociedade o Estado de Exceção nunca deixou de existir, podemos ver estes sinais:

Quando o Estado ordena a prisão de um cidadão, sem que haja crime nem julgamento.

Quando usa da coerção para interrogar cidadãos.

Quando os retira forçadamente, sem mandado, dos seus lares e famílias.

Quando há conluio entre os poderes institucionais dos políticos, do sistema jurídico e dos meios de comunicação.

Quando os discursos públicos começam a ser ameaçadores e anunciadores do pior.

Quando este efeito terrorista se irradia de forma instantânea.

Quando fica claro que não se trata — quando falamos dos indícios do Estado de Exceção — de estar dentro ou fora da Lei constitucional – sem garantia dos direitos da cidadania – mas de estar fora do Estado Democrático de Direito – sem as garantias dos direitos fundamentais do ser humano.

Quando aparece um discurso moral totalitário disposto a apontar os condenados da vez (além dos de sempre, é claro), como acontece hoje com o descortinamento da corrupção, que sempre houve. Só que agora, os lucros políticos das denuncias purificadoras são oferecidos como bandeiras – financiadas, como sempre foram, pelo poder econômico das corporações – para a mobilização da massa e a formação de consensos, que se definem mais pelo inimigo comum que recortam, do que por seus (inexistentes) projetos.

Quando, enfim, a multiplicação de abusos e excessos parece anunciar uma ruptura da ordem – chame-se golpe ou qualquer outro nome –, é necessário lembrar os princípios da Justiça de Transição: memória, verdade e justiça e reforma das instituições do Estado. Reformas institucionais para que cessem as violacões e se garanta os direitos constitucionais para todos. Memória para não esquecer que já vivemos sob o Estado de Exceção, mesmo que hoje tenhamos um Estado que reconhece seus crimes (do passado) e se responsabiliza pela reparação. Verdade para ser restabelecida por cima do imaginário produzido pelas grandes mídias, e, Justiça para apontar onde se encontram as verdadeiras chagas da impunidade: nos violadores dos direitos humanos nunca julgados… e não apenas nos corruptos. O chamado ‘caixa dois’ é crime punível e a prática de abuso de poder, prisão mediante sequestro, torturas e assassinatos em nome da lei e da ordem, não?

Cabe aos grandes coletivos dar um outro destino ao atual ‘sentimento de ruptura iminente’. Neste sentido, cabe a pergunta: qual é a metáfora para representar aquilo que advirá? A irrupção do maravilhoso mundo desejado? A ruptura do ‘ovo da serpente’? Ou algum acontecimento outro? Nossa clinica política nos indica apostar no acontecimento e não na repetição. 

ASSINAM:

EQUIPE CLÍNICO-POLÍTICA RJ:

Cristiane A. Cardoso

Eduardo Losicer

Eduardo Passos

Janne Calhau Mourão

Juliana Pimenta

Marco Aurélio Soares Jorge

Marília de A. Felippe

Olívia Françozo

Tania Kolker

Vera Vital Brasil

 

APOIOS:

De entidades:

  • Instituto de Estudos da Religião – ISER – RJ;
  • Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro – CRP RJ;
  • Filhos e Netos por Memória Verdade e Justiça –RJ;
  • NURAAJ – Núcleo de Referência em Atenção à Adolescência e à Juventude da Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae – SP;  
  • Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae – SP.
  • Comitê Carlos de Ré da Verdade e da Justiça

Apoios individuais:

  • Aldo Zaiden – Psicanalista, ex-Coordenador-Geral de Combate à tortura da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.
  • Amanda Valério Espíndola – Psicóloga – RS;
  • Ana de Miranda Batista, sanitarista, ex-presa política 1968-1974;
  • Andris Tibúrcio – Psicóloga – RJ;
  • Bárbara de Souza Conte – Psicanalista – RS;
  • Beatriz Lenz Cesar – Psicóloga – RJ;
  • Bernardo Karam – Professor de Economia Política e Economia Brasileira do IE da UFRJ – RJ;
  • Beth Formagini – cineasta, produtora, documentarista – RJ;
  • Cristina Herrera – Psicanalista e Terapeuta da Clínica do Testemunho Projetos Terapêuticos SP, de 2013 a 2015;
  • Cleusa Pavan – Psicanalista, Analista Institucional; ex-integrante do Projeto Clínico TNM-RJ; Professora do Curso de Psicopatologia e Saúde Publica da Faculdade de Saúde Pública-USP – SP;
  • Dirce Teresinha Tatsch – Psicóloga – Professora Universitária. Passo Fundo – RS;
  • Elaine Rosner Silveira –  Psicóloga Clínica; membro da APPOA – RS;
  • Heliana Castro Alves – Terapeuta Ocupacional – MG;
  • Heliana de Barros Conde Rodrigues – Professora Universitária – UERJ / Departamento de Psicologia Social e Institucional – RJ;
  • Ileno Izídio da Costa – Professor Adjunto do Departamento de Psicologia Clínica e  Coordenador do Centro Regional para Enfrentamento às Drogas da UnB (CRR-UnB/Darcy Ribeiro/Senad) – Membro do Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (CNPCT) do Governo Federal, representando o Conselho Federal de Psicologia (2014-2016) – DF;
  • Issa Mercadante – Psicanalista e Psiquiatra – SP;
  • José Luiz Victório Cervantes – Psicólogo, membro do Colectivo Contra la Tortura y la Impunidad (CCTI) – México,
  • Júlia H. Nasser – Psicóloga Clínica – Rio de Janeiro;
  • Laerte Vaz de Melo – Médico, Ex-presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro – CREMERJ – RJ;
  • Leo Alves Vieira – Compositor, neto do Desaparecido Político Mário Alves Vieira;
  • Lúcia Vieira Caldas (Lucinha Alves) – Filha de Mário Alves de Souza Vieira, Desaparecido Político em 16 de janeiro de 1970 – RJ; 
  • Luciana Knijnik – Psicóloga – RS;
  • Luis D. Zorraquino – Arquiteto – RJ;
  • Lygia Jobim – Advogada e Jornalista, filha de José Pinheiro Jobim – RJ;
  • Márcia Curi Vaz Galvão – Professora, filha de Gladys Celina Curi Bermudez e Araken Vaz Galvão, perseguidos e presos políticos durante os regimes ditatoriais no Cone Sul – RJ;
  • Márcia Savaget Fiani – presa política – 1969: Ilha das Flores/Bangu/DOPS – RJ;
  • Maria Aída Bezerra Costa – Ex-Presa Política, integrante do Projeto Clínicas do Testemunho RJ – Rio de Janeiro;
  • Maria Angela Santa Cruz – Psicanalista, Analista Institucional; ex-integrante do Projeto Clínico TNM-RJ, Coordenadora do NURAAJ – SP; Integrante da Equipe Gestora da Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae – SP;
  • Maria Beatriz  Costa Carvalho  Vannuchi – Psicanalista e Terapeuta da Clínica do Testemunho  Projetos  Terapêuticos  SP, de 2013 a 2015;
  • Maria da Conceição Nascimento – Psicóloga –Niterói;
  • Maria de Fátima Fischer – Psicóloga e Professora Universitária, militante da Luta Antimanicomial do Fórum Gaúcho de Saúde Mental – RS;
  • Maria de Fátima Nóbrega Ariston – Artista Plástica – RJ;
  • Maria Marta Azzolini – Psicanalista e Terapeuta da Clínica do Testemunho Projetos Terapêuticos SP, de 2013 a 2015;
  • Monica Levy – Psicóloga – RJ;
  • Nancy Lamenza Sholl da Silva – Psicóloga e Professora Universitária – UFF/Volta Redonda – RJ;
  • Oscar Torres Fagundes Neto – Sociólogo, MS. Comunicação Social – Militante Comitê Carlos de Ré – Porto Alegre – RS;
  • Paulo Endo – Professor Doutor do Instituto de Psicologia da USP – SP;
  • Renata Costa-Moura – Psicóloga, Psicanalista e Professora da Universidade Federal do Espírito Santo–UFES – ES;                                 
  • Rodrigo Blum – Psicanalista e Terapeuta da Clínica do Testemunho Projetos Terapêuticos SP, de 2013 a 2015;
  • Rodrigo Lages e Silva – Psicólogo – Professor da Faculdade de Educação da UFRGS – RS;
  • Sergio Luis Braghini – Psicólogo, Docente da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Conselheiro do Conselho Federal de Psicologia – CFP – SP;
  • Silvana Mendes Lima – Psicóloga e Professora Adjunta do  Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense – RJ;  
  • Silvia Helena Calmon Bemfica  – Psicóloga, Psicanalista – RJ;
  • Silvia Helena Tedesco – Psicóloga e Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense – RJ;
  • Tania Roque – Ex-presa política – 1969 – Cenimar – RJ;
  • Vera Paiva – Professora Universitária USP – SP; 
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2 comentários sobre “NOTA PÚBLICA DA EQUIPE CLÍNICO-POLÍTICA RJ

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