MATÉRIA NO JORNAL DO COMÉRCIO: “MEMORIAL ICO LISBOA GANHA APOIO INTERNACIONAL”

Memorial Ico Lisboa ganha apoio internacional

Grupo argentino Mães da Praça de Maio subscreve a proposta

Carolina Hickmann, especial para o JC

Prédio na rua Santo Antônio, na Capital, deve ser transformado em símbolo de luta contra a ditadura
Prédio na rua Santo Antônio, na Capital, deve ser transformado em símbolo de luta contra a ditadura. Foto de GILMAR LUÍS/JC

A proposta de dar nova significação ao casarão da rua Santo Antonio, número 600, conhecido como Dopinha – o espaço foi um local clandestino de tortura em Porto Alegre – ganha apoiadores internacionais. Através de carta proposta pelo Comitê Carlos de Ré (CCR), a iniciativa já conta com a assinatura de 60 entidades nacionais e internacionais, entre as quais integrantes do grupo de fundadoras das Mães da Praça de Maio, da Argentina, e o Estádio Nacional do Chile, local de tortura e execuções durante a ditadura chilena.

O documento afirma que o Dopinha foi cenário de “graves violações de direitos humanos contra a cidadania em geral e na pessoa de opositores”. De acordo com o coordenador do CCR, Raul Ellwanger, é importante tornar o lugar um “sítio de memória”, como maneira de “reparação histórica as violações que lá ocorreram”. Segundo a carta, a criação de locais que resgatem a memória dos anos de chumbo já havia sido recomendada por documentos emitidos por diversas entidades, entre elas a Comissão Nacional da Verdade.

O manifesto é mais uma iniciativa para pressionar as autoridades por uma definição quanto à criação do Memorial Ico Lisboa – referência a Luiz Eurico Tejera Lisboa, primeiro desaparecido político a ter a sua ossada identificada. As tratativas com o poder público já duram quase três anos.

O movimento conta com a participação das três esferas do Executivo para o andamento do projeto. O Estado está a cargo de metade do valor do imóvel, enquanto o município arcaria com a outra metade e a desapropriação do local. A União auxiliaria os movimentos sociais na gestão do espaço. Como o governo do Estado alega estar sem recursos, fala-se na possibilidade de o Executivo federal arcar com o valor.

A carta será lida no Colóquio de Sítios de Memória no Conesul, que acontece no próximo dia 23, às 19h, no Museu de Direitos Humanos do Mercosul.

Militares tinham ordem para matar ‘subversivos’, diz telegrama dos EUA

Telegrama sigiloso liberado à consulta em maio deste ano pelos EUA e disponibilizado à consulta pelo Arquivo Nacional nesta semana aponta que as forças de segurança do Brasil tinham, no início da década de 1970, a ordem de matar militantes da esquerda armada logo após suas prisões. “É ordem permanente entre as forças de segurança de que qualquer subversivo treinado no exterior que retorna ao Brasil será assassinado, após interrogatório, se for pego vivo”, escreveu, em junho de 1972 ,o cônsul americano em São Paulo, Frederic Chapin, morto aos 59 anos, em 1989.

A informação é confirmada por outro telegrama datado de abril de 1971. “Há fortes indicativos provenientes de várias fontes de que as forças de segurança estão agora mais inclinadas a eliminar terroristas importantes do que mantê-los presos depois de interrogatório”, diz o texto produzido pela Embaixada dos EUA em Brasília. A embaixada associou a orientação ao surgimento de “uma nova fase do terrorismo” no Brasil, que teria sido marcada pelo assassinato, em 15 de abril daquele ano, do empresário Henning Boilesen, um dos financiadores da Oban (Operação Bandeirante), unidade da repressão na ditadura. O ataque foi praticado por militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional). “Se as informações estão corretas, pode haver uma escalada acentuada de violência tanto da parte dos terroristas quanto das forças de segurança brasileiras”, escreveu a embaixada.

No telegrama em que relatou a ordem para assassinatos, Chapin analisou “vários relatos” que chegaram ao consulado sobre maus-tratos de presos políticos, “ou seja, tortura, negativa do devido processo legal e outros abusos”. A principal fonte dessas informações era a Igreja, segundo Chapin. Em março, em conversa com o pessoal da embaixada, o “arcebispo”, uma provável referência a dom Paulo Evaristo Arns, disse que “raramente passa um dia” sem que um caso de maus-tratos lhe chamasse a atenção. Chapin apontou que “as alegações das autoridades da Igreja têm sido confirmadas por outras fontes”.

O diplomata concluiu: “Funcionários da área de segurança tomam a atitude muito linha-dura segundo a qual quaisquer meios justificam o combate à subversão como fim, e nós acreditamos que isso inclui tortura como um método rotineiro de interrogatório ao menos dos prisioneiros suspeitos de terrorismo”. O diplomata analisou algumas notícias de jornal sobre abertura de investigações contra policiais acusados de tortura. Segundo Chapin, “o fato de que esses fatos estão sendo divulgados pela imprensa pode indicar uma política de governo contrária à tortura como método de interrogatório, mas não há nenhum outro sinal de que os homens da segurança em São Paulo estejam propensos a abandonar essas práticas quando lidam com suspeitos de subversão”.

Em junho de 1970, os norte-americanos conduziram uma série de conversas com diversos militares no Brasil, ao longo de seis semanas, nas quais tocaram no tema da tortura, segundo revela outro telegrama recentemente liberado à consulta. Os brasileiros, embora negassem a prática da tortura, afirmaram várias vezes uma “legítima defesa dos interesses do Brasil face a um movimento subversivo esquerdista/comunista, determinado, organizado e financeiro no exterior”, escreveram os diplomatas.

Link da matéria: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=202120&desktop=1

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