SÍTIOS DE MEMORIA

VALOR ÉTICO DOS SÍTIOS

Na simbologia de cada povo, o evento histórico que procura ser fixado na cultura espiritual deste povo, encontra sua existência e permanência no próprio e mesmo local físico onde tal evento sucedeu. Um simples campo aberto e nu pode ser a ligação entre o fato historico e seu símbolo atual , como Waterloo ou o Grito do Ipiranga, identificado atravez de seus monumentos oficiais pertinentes.

Na cultura popular espontânea sucede o mesmo vinculo estreito e indissolúvel entre o imaginário a ser exaltado e seu lugar histórico de ocorrencia. Veja-se o rio onde se achou a imagem de N. Senhora de Aparecida, o Santuario de Caaró, a tumba de Sepé Tiaraju em Caiboaté, até mesmo o nomear-se uma rua como “da Praia” para lembrar o nascimento de um povoado. Quando não há sitio, cria-se o “lugar do sitio” como são os monumentos ao Soldado Desconhecido, piedosa ironia que cria até mesmo “o sujeito do sitio”

O sítio “é” o fato, é a materialidade viva que uma dada cidadania escolhe para eternizar sua memória. O acontecimento “acontecido” encontra no lugar “atual” o símbolo vitalizado de sua perpetuação no imaginário ético popular. O passado fundacional se manifesta no presente em diária refundação. O que já “passou” está a toda hora “sendo”.O que a memória resgata daquilo “que um dia já foi”, termina deste modo por “estar constantemente sendo”. O sitio físico de hoje é o próprio “fato espiritual” de ontem.

Na América do Sul, a criação em décadas recentes de “centros tortura e desaparecimento” de opositores políticos, ensejou posteriormente o surgimento de centros/museus/casas onde se registra e materializa a memória dos tormentos, a luta de oposição aos tormentos e as conquistas cidadãs e democráticas advindas.

Seu valor simbólico reside no conteúdo que resgatam e mostram, sem depender de suas dimensões físicas ou valor artístico. Podem ser uma antiga residência, como a “Casa de Theotonio” (Chile), um complexo gigantesco de vários hectares, como a ESMA (Argentina), novas edificações espetaculares como o Museu Nacional da Memoria (Chile). Sua importancia advém do humanismo e da verdade, da ética e da democracia que materializam, e brilha dia após dia até mesmo nos humildes grilhões enferrujados das masmorras onde o totalitarismo tentou aprisionar as idéias encarcerando os homens.

Nos singelos tijolos nus de uma parede rabiscada a canivete, onde uma frase poética cravou o desamparo e a esperança, o sitio age para salvar a memória ocultada, para resgatar a ética vilipendiada, para escrever a verdade tergiversada e para reconquistar a justiça pisoteada.

CASA DA MEMÓRIA EM PORTO ALEGRE

Rua Santo Antonio n. 600, Porto Alegre, RS, Brasil.

Esta edificação foi um dos primeiros centros de tormentos do país, onde se praticaram sevicias desde 1964, mesmo antes do advento do AI-5 de dezembro de 1968, considerado um marco na crescente brutalização da repressão.

Seu caráter clandestino e precoce dentro de um sistema já de por si ilegal pois fruto de golpe de estado, anuncia e evidencia o caminho perverso que se incrementará nos anos seguintes. A passagem por ali do seqüestrado/assassinado/desaparecido Sargento Raimundo Soares, os relatos do ali seqüestrado Sr. C.H., e a própria desativação apressada deste centro de torturas, caracterizam o lugar como um depósito de memórias da resistência, da violência e do ocultamento deliberado de nossa historia.

O endereço da Rua Santo Antonio n. 600 em Porto Alegre constitui um característico “Sitio de Memória” onde a criação de um Centro cultural/histórico/museologico/interativo/arquivistico ajudará na educação da cidadania para a defesa dos Direitos Humanos. Sediado em Porto Alegre, cidade onde desvendou-se a Operação Condor e onde se cruzam povos e culturas de vários países, terá este Centro projeção latinoamericana e internacional.

O NOME DO SÍTIO: “CENTRO DE CULTURA ICO LISBOA”

O Sitio deverá ser nomeado como “Centro de Cultura Ico Lisboa” (Luiz Eurico Tejera Lisboa), jovem brasileiro de trajetoria vinculada à cidade de Porto Alegre. Perseguido, forçado à clandestinidade, difamado, seqüestrado/desaparecido, assassinado, ocultado dos familiares, teve seus restos mortais finalmente descobertos em vala comum no Estado de São Paulo, constituindo a primeira comprovação da política estatal oficial de desaparecimento no pais.

Estudante, poeta, funcionário, líder estudantil, militante da resistência democrática, modelo de cidadão insurreto ante a tirania, Ico Lisboa outorgará com seu exemplo, seu símbolo, seu nome e sua legenda, um profundo valor moral ao sitio referido.

CHILE E ARGENTINA: PROCEDIMENTOS

-Prédio publico;

-Comodato por vinte anos (p. ex.) relativo ao edificio;

-Comite gestor civil de compromisso com o conteúdo;

-Não interferência do Estado na gestão;

-Verba pública formal mantenedora;

-Convenios bilaterais;

-Membro da Coalición Internacional de Sitios de Conciencia;

O Sitio representa o acontecimento, ao preservar sua materialidade.

A Vida vive no que desviveu. A Morte morre no que reviveu.

Abaixo, arquivo com os princípios fundamentais para as políticas públicas sobre lugares de memória, produzido pelo Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos (IPPDH).

Sítios de Memória

Conheça o IPPDH: http://www.ippdh.mercosur.int/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s