VOCÊ CONHECE O DOPINHA?

Quem caminha pela rua Santo Antônio, no bairro Floresta, não imagina que uma de suas casas mais antigas já foi palco de pesadas violações aos direitos dos homens. Ela é o que sempre foi: uma rua residencial. Durante os anos de chumbo o casarão de nº 600 trocava de inquilinos com frequência, mas o entra e sai de carros sempre foi percebido. Acobertado por fachadas, como ponto de venda de produtos de beleza, estava o Dopinha, aparelho clandestino de tortura do DOPS gaúcho.

Casa da Rua Santo Antonio, nº600
Casa na Rua Santo Antonio, nº600

“Local de tortura”, avisa o muro do casarão. Um olhar mais atento permite notar que as pichações da casa ultrapassam a demarcação de território e são, na verdade, denúncias. “Abaixo a ditadura”, palavra de ordem utilizada durante o regime militar, e “Cadê o Amarildo”, ajudante de pedreiro morto pela política carioca, também são lembrados no muro da casa.

Não é difícil estabelecer ligação entre o caso do pedreiro carioca e de Sargento Manoel Raymundo Soares, um dos torturados no casarão no ano de 1966 e despejado nas águas do rio Jacuí. A polícia que desapareceu com Amarildo leva a militarização dos anos de chumbo em seu DNA. Ainda nos dias atuais vivemos em uma Justiça de Transição, e casos como os de Amarildo e Manoel Raymundo Soares não podem ser dissociados.

É importante também levarmos em conta a data de morte do Sargento. Em 1966 ainda havia a tentativa de manter um caráter legal a Ditadura Militar, e neste ano já haviam torturas e mortes a opositores do regime.

O Comitê Carlos de Ré luta para que o centro clandestino de tortura Dopinha seja ressignificado como Memorial Ico Lisboa, primeiro desaparecido e assassinado político a ter a sua ossada identificada no país.

Ato em frente a Casa da Morte, em Petrópolis, RJ.
Ato em frente a Casa da Morte, em Petrópolis, RJ.

No Rio de Janeiro, Petrópolis, existe uma tentativa semelhante. Outro centro clandestino de tortura e assassinatos, conhecido como Casa da Morte e identificado pelos militares como “Codão”, está sendo desapropriado. Inês Etiene Romeu, única sobrevivente do local, teve a coragem de identifica-lo, o que fez com que sofresse perseguições por toda a vida. No ano de 2003, a militante foi encontrada desacordada com traumatismo craneano em seu apartamento, o que a fez necessitar de auxílio médico por muito tempo e limitou a sua atuação política. O caso permanece inexplicado até hoje. Inês faleceu em 27 de abril de 2015.

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