Amelinha Teles*: o papel das mulheres na resistência

Por Christine Rondon
amelinha teles
No final de 2012, em visita à Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, tive a oportunidade de passar uma tarde com Maria Amélia de Almeida Teles. Uma tarde com direito a bolo, risadas e muita descontração que, infelizmente, não há jeito de compartilhar em um blog, mas compartilho aqui o houve de mais valioso nesta tarde: a nossa conversa sobre o papel das mulheres na resistência. Devidamente autorizado (e incentivado) pela “entrevistada”, segue o texto:
“Em 1970 as mulheres eram invisíveis na história, como se não tivessem participação […], o que não é verdade. Todo movimento popular da história que tenha sido de fato popular teve participação de mulheres, inclusive liderando.”
lugar de mulher é na luta
Amelinha lembrou que no séc XX, com influências anarquista e comunista, algumas mulheres chegaram a liderar greves. O ano de 1917, para quem estuda o feminismo, é um marco no que diz respeito à participação e liderança das mulheres. A redução da jornada de trabalho, por exemplo, foi uma bandeira levantada por trabalhadoras. Desde os primeiros direitos trabalhistas até a conquista do direito de voto as mulheres tiveram protagonismo de luta.
As mulheres participaram ativamente da luta contra o capitalismo (lembra da Pagu?). No entanto, até hoje os papeis que cumpriram são reduzidos na história oficial e na memória das pessoas. “A Olga ficou conhecida porque foi entregue à Gestapo. Ainda assim é referida como mulher do Prestes, e não como a revolucionária que foi”.
Dentro da esquerda a história não mudou muito de figura.
“Quando foi preciso pegar em armas nós pegamos em armas […], mas éramos minoria na luta armada antes pelo preconceito dos homens”.
A despeito do machismo, até mesmo os inimigos reconheceram -e chegaram a invejar- o valor e a bravura das guerrilheiras de esquerda. É o que consta em diferentes relatos de agentes da repressão que narraram os últimos minutos de algumas destas mulheres.
São fortes os exemplos trazidos pela Amelinha.
lucia
Lúcia Maria de Souza estudou medicina no Rio de Janeiro, mas teve que abandonar o curso no 4º ano por causa da perseguição da ditadura. Tornou-se guerrilheira e também atuou como parteira e médica no Araguaia, onde em 1973 foi capturada por uma patrulha do exército. Ao insistirem para saber o seu nome, Lúcia Maria de Souza respondeu: “Guerrilheira não tem nome, seu filho da puta, eu luto pela liberdade!”. Antes de ser assassinada, ainda conseguiu puxar a arma e atirar em dois militares, sendo um deles o conhecido Major Curió, atingido na barriga. Sobreviveu.
dinaelza
Dinaelza Coqueiro estudou geografia na PUC de Salvador. Também foi assassinada em 1973 na Guerrilha do Araguaia. A última vez que foi vista por moradores da região estava enfrentando os militares com insultos e cuspes, entre eles também estava o Major Curió. Consta que, amarrada, aproximou-se do fogo para queimar as cordas e se soltar. Conseguiu. Subiu numa árvore indicando que os militares deveriam cortar a árvore ou matá-la. Não desceria. Não escapou da morte, mas antes de morrer bradou “abaixo a ditadura!”.
“E as mulheres, além das guerrilheiras, participaram da imprensa, do serviço de inteligência da esquerda” e de diversos outros espaços importantes para a resistência e enfrentamento ao regime militar.
“Depois do AI-5, o primeiro movimento que sai para as ruas é o das mulheres, lutando por anistia e pelo custo de vida, uma reivindicação de caráter político e outra de caráter econômico. Depois saíram os estudantes e depois os trabalhadores”.
Sobre o ato de identificação do Madre Pelletier, que se propôs a homenagear as mulheres da resistência e também as lutadoras de hoje, que enfrentam o machismo em seu cotiadiano, Amelinha disse achar a iniciativa brilhante, ou melhor “brilhante não, porque brilhante lembra o Ulstra. Foi uma iniciativa excelente, exemplar, que deve ser seguida. Vou propor isso aqui em São Paulo, na Casa dos Egressos”.
A saber, a Casa dos Egressos recebeu diversas presas políticas. Mulheres que não eram aceitas pelas freiras da penitenciária feminina do Carandiru. As chamadas presas comuns que haviam cometido “crimes mais graves” e as terroristas eram colocadas na Casa do Egresso, onde até hoje funciona um presídio.
As torturas e humilhações sofridas pelas mulheres apanhadas pela repressão geram traumas especialmente cruéis numa sociedade machista que ensina as mulheres a não provocarem os homens, quase que naturalizando a possibilidade de sofrerem violências sexuais. Também por isso o sentimento de culpa e vergonha ganham especial dimensão.
“Quando a gente perde a vergonha de falar do que passou é porque deixamos de nos sentir culpadas […]. E falar é importante, porque esclarece a opinião pública e vai criando condições para um mundo sem violência”.

Amelinha conta sua história há muitos anos e, sobre seus próprios traumas, ela diz: “eu fiz terapia pelas mãos do povo. Fui ouvida e recebi solidariedade de muita gente”.

* militante de Direitos Humanos, integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e é diretora da União de Mulheres de São Paulo.

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