“Eu não me arrependo do cuspe, porque eles também não se arrependem do que fizeram na ditadura”

Por Ana Helena Tavares, editora do site “Quem tem medo da democracia?”:

29 de Março de 2012 foi um daqueles raros momentos em que a esquerda se uniu. Centenas de militantes das mais variadas tendências, em sua maioria jovens, se reuniram em frente à sede do Clube Militar, no Rio de Janeiro, para protestar contra o que ocorria lá dentro. Algumas dezenas de militares, em sua maioria idosos, celebravam os 48 anos do dia 31 de Março de 1964. Dia em que, para eles, ocorreu uma “revolução”.

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“Eu milito na área dos Direitos Humanos e, quando a gente ficou sabendo que os militares iam festejar o golpe, eu me senti na obrigação pessoal de estar lá e protestar. Aí, nós combinamos pelo Facebook, e não imaginávamos que seria o que foi. Não houve organização prévia. Eu chamo essas atividades de “Flash Móvel”, foi espontâneo: um contou pro outro, que contou pro outro e, assim, aconteceu. Cresceu mais do que a gente.”, relatou, em entrevista exclusiva para o “Quem tem medo da democracia?”, o jovem de 22 anos Felipe Garcez.

Flagrado cuspindo

Garcez foi fotografado, naquele dia, cuspindo na direção de um militar que participava da comemoração. A foto, da Agência Estado, foi publicada, na época, no site da Veja, por Reinaldo Azevedo, que chamou Garcez e seus colegas de “baderneiros”. O fato de o cuspe ter sido registrado lhe rendeu um processo na Justiça, onde aparece como autor.

“Eles alegam tipificação de “constrangimento ilegal”. Também pelo cuspe, mas não só por isso. Por todo o ato. Pelos ovos que jogaram. Pelos xingamentos que eles alegam que tiveram. Por toda a situação, que eles dizem que eu sou o responsável. O que é uma insanidade dizer que eu sou o responsável. Outras pessoas estão arroladas junto, mas só estão sendo investigadas. O Clube Militar, que foi quem pediu a abertura de inquérito, me coloca como autor. Eu e mais quatro pessoas, se não me engano. Alguns meus amigos. Posso citar o Ádio, Eduardo Beniacar, Matheus Aragão, que conheço só de vista, e o Silvio Tendler (cineasta, que nem estava presente).”

Sem arrependimentos

“A nossa idéia nunca foi ir para lá agredir eles. A nossa idéia foi protestar mesmo. Porque é uma situação em que os caras debocham. Eles dizem assim: ‘Não matamos comunistas, matamos porcos. Tinha que matar mesmo. Fizemos pelo Brasil’. Eram frases ditas para a gente. É claro que eu não queria que tivesse chegado a isso, mas eu não me arrependo (do cuspe), porque eles também não se arrependem do que fizeram (na ditadura). O pessoal levou fotos (dos desaparecidos políticos) e eles (os militares) apontavam para elas e diziam: ‘Matei! Matei mesmo!’ Então, no dia que eles disserem que se arrependem disso, eu direi que me arrependo do cuspe.”

O militar em quem Garcez foi fotografado cuspindo é o Coronel-aviador Juarez, presidente do Ternuma, grupo de extrema-direita chamado “Terrorismo Nunca Mais”. “É um grupo que defende a ditadura. Não é ele quem está me processando. Eles se utilizaram do Clube Militar para isso, mas ele está relacionado como uma das vítimas. Como também o Coronel Batista, do Exército, e o cara que matou Lamarca (General Cerqueira). Eles estavam todos lá e estava também a família Bolsonaro, que é toda estranha. Muita gente cuspiu e vários deles foram cuspidos. Eles nunca tinham passado por aquilo.”

“Ele disse que devia ter matado o meu pai”

“No Cel. Juarez eu nem cheguei a cuspir. O que eu tentei foi evitar que ele chegasse a mim. Ele veio para me agredir. Ele disse que devia ter matado o meu pai. Tinha um monte de gente dizendo para ele: ‘Você matou comunistas’. E ele me disse: ‘Devia ter matado o seu pai’. Então, para mim, foi uma reação, legítima defesa.” O pai do jovem estava presente à entrevista e, paradoxalmente, se diz um homem de direita.

Garcez conta que não estava em casa quando a polícia levou intimação para ele depor na 5ª DP, em 10 de Janeiro de 2013, e que se impressionou com a forma de abordagem: “Eu senti que a própria polícia queria me intimidar, pois não fazia sentido nenhum eles mandarem 3 viaturas para me entregar um papel. E bateram de casa em casa dos meus vizinhos. E trataram eles mal, falando com eles de fuzil na mão. Foram brutos. Mas, na delegacia, o inspetor de polícia que me recebeu estava bem tranquilo, me tratou muito bem e me deixou bem à vontade.”

Um caso de política

“Ele próprio me disse: ‘o caso de vocês não é caso de polícia, é caso de política. Até o governador já ligou para cá querendo saber que processo é esse que envolve o Silvio Tendler.’ Então, creio que eles se acalmaram depois da repercussão à intimação do Tendler. Porque, segundo o inspetor que me interrogou, depois que o processo dele (do Tendler) chegou à delegacia, até o Comando Militar do Leste, militares da ativa, passaram a acompanhar o caso. E houve uma repercussão nacional.”

“Nós recebemos muitas ameaças e alguém, não sei quem, mandou um e-mail para o senador Eduardo Suplicy falando sobre essas ameaças. O senador enviou um ofício para o ministro da Justiça. E o ministro abriu um processo na Polícia Federal em proteção à gente. Este processo foi anexado ao nosso, com parecer do ministro e do senador Suplicy em defesa da gente. Então, o próprio inspetor me disse: ‘O caso de vocês é muito preocupante. Isso deu uma merda em Brasília, estão fazendo reuniões e acho que isso vai ser arquivado”.

“Constrangimento ilegal”

O Clube Militar processa por “constrangimento ilegal”, mas, segundo o advogado de Felipe, membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, uma instituição não pode processar ninguém por “constrangimento ilegal”. Só quem pode se sentir “constrangida” é uma pessoa física. Segundo Felipe, o advogado acredita que “o processo foi feito para aterrorizar, porque juridicamente eles não vão conseguir nada”. “O patrimônio do Clube não foi depredado, a instituição não foi invadida. Os militares puderam entrar e sair livremente. Alguns alegam que (o protesto) os atrapalhou, mas o evento ocorreu tranquilamente. Eles ficaram lá tomando o seu coquetelzinho e chamando de ‘Revolução de 64’…”

Ao que tudo indica, o “coquetelzinho” pode se repetir em 2013, quando o golpe completará 49 anos. “Há depoimentos dos militares, que foram depor como vítimas, em que eles dizem que farão de novo a comemoração e que neste ano o Comando Militar do Leste fará a segurança do Clube Militar. A gente vai contestar isso na justiça. Porque a Dilma proibiu a comemoração. Se a Dilma proibiu, os militares da ativa não podem se meter nisso. Só os reformados”.

A união da esquerda

Para Garcez, o protesto de 29 de Março do ano passado “superou as expectativas em todos os sentidos. Até na participação heterogênea. Participaram desde o PSTU e anarquistas às alas mais de direita da esquerda, alas mais conservadoras. Eu milito no movimento estudantil, conheço muita gente da política e vi lá pessoas de vários partidos: PT, PDT, PCdoB, PSOL, PSTU… Gente que não milita dentro de partido, mas milita dentro de ONG, que também tava lá… Todo mundo misturado. Tinha umas 400 pessoas, mas havia uma diferença para outros protestos: eram 400 militantes, 400 pessoas que tinham algum envolvimento com a causa, algum histórico de luta. Então, era um clima diferente. Você via gente que nunca tinha se unido para nada. A esquerda estava unida ali.”

400 é um número que hoje impressiona para manifestações no Brasil, mas na América Latina e Europa é comum ver centenas de milhares e até mais de um milhão de pessoas nas ruas. Por que no Brasil é diferente? Para Garcez, “há uma alienação muito grande da juventude e isso tem a ver com a melhoria do poder de compra. Eu faço o raciocínio de que quando o país teoricamente melhora a juventude se aliena. O que acontece nos países da América Latina é que os países são menores, a população é menor.” Além disso, Felipe lembra que as ditaduras de Argentina e Chile foram “derrubadas”. “Aqui foi feita uma concessão. Aqui é meio mormaço, há sempre um acordão. Daí que a gente vive um refluxo no movimento como um todo. Mas eu acho que, desde 2009, a coisa está mudando. Eu tenho visto cada vez mais o movimento aumentar.”

“Praça de guerra”

Garcez considera que aquele evento “abriu a praça de guerra”, abrindo caminho para outros ‘escrachos’ e ‘esculachos’ que viriam depois. “A Comissão da Verdade foi um super avanço, mas o problema é que ela precisava ter caráter deliberativo. Ela não pode incriminar ninguém, é como se fosse um estudo para levantar documentos. Ela precisava poder intimar e processar. Porque tem muito militar que assume que matou, torturou, e a justiça não faz nada. Eu defendo julgamento e prisão, caso condenados. Porque a ditadura não legalizou a tortura. Nunca houve tortura legalizada no Brasil. Mesmo durante aquele período, torturar era ilegal.”

“Como é hoje a ação da polícia nas favelas. Mas tem os ‘autos de resistência’, aí ninguém é condenado. E, se não condenarmos os da ditadura, o recado que a gente está dando é: façam ditadura, deem golpe e torturem que vocês vão ser reformados e ter pomposas aposentadorias até o fim das suas vidas. Isso está errado! Claro que há exceções, há militares que lutaram contra o golpe e, por isso, foram cassados e presos. Mas as novas gerações que entram para o Exército ainda são treinadas contra a ‘ameaça vermelha’, contra o inimigo comunista. Isso está errado! O Exército tem que defender a Pátria e não ser contra um regime político. Eles têm uma educação arcaica.”

“O MST vindo para a cidade”

Para Garcez, “o governo é muito recuado ainda (na luta pelo esclarecimento dos crimes da ditadura), mas é muito mais avançado do que a gente já foi um dia. A partir dela (da Comissão da Verdade), os militares foram para a mídia dizer que é ‘revanchismo’ e dizem que os crimes da esquerda também têm que ser investigado. Mas não têm! Porque não é a mesma relação. O que precisa ser investigados são os crimes de Estado. Porque a esquerda estava combatendo uma ilegalidade, então não houve crime, houve resistência. Vamos investigar resistência? Eu acho que não. Então, começou-se a criar um clima de enfrentamento. Aquele ato não inicia, ele é o ápice do enfrentamento. Deixou marcas duras.”

O Levante Popular da Juventude foi recentemente condecorado pelo Governo Federal com o Prêmio Nacional de Direitos Humanos por promover protestos em frente às residências e locais de trabalho de pessoas acusadas de terem sido torturadoras durante a ditadura. O Levante, segundo nos conta Felipe, “é um movimento social criado pelo MST, é o MST vindo para a cidade”. Mas, para ele, os chamados ‘escrachos’, que têm ocorrido no Brasil todo, “ultrapassaram a barreira do próprio Levante e se tornaram uma ferramenta de combate da esquerda.”

“Escrachos”

Garcez já participou de diversos “escrachos”. Por exemplo, em frente ao prédio do Museu da Polícia, próximo à 5ª DP, no Centro do Rio. Ali funcionava o antigo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). A Polícia Civil reivindica o prédio para uso comercial, enquanto os movimentos sociais querem fazer ali um memorial da ditadura. Garcez conta que “está também nessa luta.”

Além disso, revela ter participado de um ‘escracho’ em Niterói direcionado ao Coronel (Alberto) Fajardo, do Exército. O ‘escracho’ foi em dezembro do ano passado e, nesse dia, houve escrachos no Brasil inteiro. “No Rio, ‘pegaram’ o Curió (major acusado de crimes na guerrilha do Araguaia)”, relata Garcez que diz estar afastado desse tipo de atividade por proteção. “Na verdade, o meu grupo político optou por me colocar ‘na geladeira’, alegando que estou visado e posso estar sendo vigiado.”

Seguidos de perto

A suspeita de estar sendo vigiado tem fundamento. No site “A verdade sufocada”, mantido pelo coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, que é declarado pela Justiça como torturador, foram publicadas fichas com informações de Felipe e de outros manifestantes que participaram do ato no Clube Militar. Mas, segundo o jovem, “foi feito um dossiê ainda mais detalhado. O inspetor que me interrogou disse até que deve ser aberto um processo para averiguar como eles têm acesso a essas informações. Eu trabalhei no Circo Voador, mas não tinha carteira assinada, não há registro. E eles sabem. Eles descobriram coisas minuciosas como o local onde um dos manifestantes trabalhou em Israel. Nem ele lembrava. Chega a ser assustador.”

Apesar do engajamento na causa, Garcez tem uma relação longínqua com a ditadura. “A minha mãe conta a história do meu tio-avô, que era do Partidão (PCB), que ele se escondia na casa do meu avô, pulava janela, mas nada muito próximo. A minha ligação com esse tema é a militância política. Desde os meus 14 anos. Desde que eu comecei a organizar o grêmio da escola onde eu estudava em Nova Iguaçu, Escola Estadual Mestre Hiran, ligada à Congregação Maçônica. Então, naquela época, eu já militava.” Depois disso, estudou no CEFET e foi fazer faculdade no Instituto Federal do Rio de Janeiro. Produção Cultural. Agora, passou para a UFF, também para produção cultural.

Militância política

Foi Secretário-geral da União Estadual dos Estudantes. Já se candidatou a cargos dentro do movimento social, mas se candidatar dentro da política partidária diz não ter vontade. “Porque eu entendo que da forma que a gente da esquerda faz política, a pessoa se entrega. É um missionário quase. E eu não sei se eu tenho essa disposição de dar a minha vida para ser candidato.”

“A minha vida é a política. Vivo disso, trabalho disso, participo disso, mas eu só seria candidato se o meu grupo político me obrigasse a isso. Porque eu entendo que o candidato é o melhor que há para se oferecer. Se algum dia, eu for a melhor coisa do meu grupo para ser candidato eu serei. Mas não tenho vontade pessoal. É uma entrega muito grande.”

Corrupção

“A sociedade é corrupta. Então, em todos os níveis do nosso sistema, em todos os poderes, você vai ter algum nível de corrupção. O problema é que a política hoje é muito carreirista. Eu falei que, para mim, a política é uma entrega, mas isso é para quem é realmente de esquerda. Porque, para quem faz política como negócio, a política é um balcão. E, para combater essa galera que faz política como balcão, você tem que se entregar.”

“Eu acho que a maioria das pessoas que hoje exercem cargos públicos não conseguem mais entender a função social. A pessoa acha que o cargo é dela. Há uma correlação de forças muito grande do empresariado com os políticos. É a força do poder econômico. Por isso que a gente luta por financiamento público de campanha.”

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