Identificação do Presídio Feminino Madre Pelletier

Dando seguimento aos atos de identificação pública de espaços de tortura e resistência em Porto Alegre, o Comitê Carlos de Ré tem o prazer de convidar toda a militância de Direitos Humanos para a identificação pública do presídio feminino Madre Pelletier, no dia 10 de setembro, a partir das 11h.

O Madre Pelletier recebeu diversas presas políticas durante a ditadura e algumas delas nos darão seus depoimentos ao vivo no ato. Faremos uma homenagem a estas mulheres e a todas que lutaram contra o regime repressivo, assinando seus nomes na história da redemocratização do Brasil.

Mas a nossa homenagem ultrapassa essas mulheres e o recorte temporal dos anos da repressão. O nosso objetivo é resgatar o papel das mulheres, de modo geral, como protagonistas de importantes processos históricos – ainda que quase sempre subjugadas a papeis sem destaque, infiéis à sua importância – e denunciar a condição atual das mulheres, especialmente daquelas que estão em situação de prisão.

A nossa disputa pela narrativa histórica dos anos da ditadura civil-militar reconhece que contra as mulheres pesavam não apenas os aparatos da repressão, mas também o machismo que, mesmo sob outras roupagens, ainda nos oprime e distorce o papel das mulheres na sociedade. Por isso nosso ato contará com a presença de mulheres de diferentes gerações e realidades, que sentem de diferentes formas os efeitos desta cultura de machismo e militarização.

A essência democrática deste ato se revela desde sua concepção. A construção está sendo compartilhada com as mulheres em situação de prisão que hoje estão cumprindo suas penas no presídio Madre Pelletier.

Estas mulheres, vulgarmente chamadas de “presas comuns”, estão unindo esforços com o Comitê Carlos de Ré e a Coordenadoria Penitenciária de Mulheres da SUSEPE para a construção coletiva de um projeto de ressignificação das celas onde ficavam as “presas políticas” da época. Elas eram colocadas nas antigas solitárias, localizadas  em uma estrutura independente nos fundos do presídio.

Este lugar era usado de castigo para as presas não-políticas e hoje serve de canil para a Brigada Militar. É um espaço minúsculo, com quatro celas que encontram seus limites em paredes de concreto que fazem a divisão do presídio com um pequeno morro de terra, responsável pela excessiva humidade que torna o cômodo quase que insalubre.

Reconhecimento Prévio do Madre Pelletier

Antes da divulgação deste ato, o Comitê Carlos de Ré teve o cuidado de fazer o reconhecimento prévio da prisão. A militante Inês Maria Serpa (Martinha), que esteve presa no Madre Pelletier por mais de um ano e foi a primeira presa política recebida no local, nos acompanhou no reconhecimento e na posterior conversa com as mulheres em situação de prisão que hoje lá estão.

As mulheres de lá contaram suas histórias e perguntaram muitas coisas sobre as experiência da Martinha na luta e na cadeia. Falaram sobre a semelhança de algumas experiências, como o uso de um saco preto mostrado para intimidar uma das presas atuais. Uma delas concluiu: “a gente ainda vive uma ditadura, só melhoraram as condições para a gente pagar as injustiças que nos são impostas”.

O Coordenadoria Penitenciária de Mulheres, que tem feito um elogiável trabalho no resgate da cidadania e na discussão da conjuntura que levou estas mulheres a situações de conflito com a lei, apresentou dados chocantes sobre a realidade das apenadas: mais de 70% das internas foram condenadas por associação ao tráfico de drogas, sendo que mais de 40% delas eram vítimas de violência doméstica, ou seja, apanhariam dos maridos/ companheiros caso não levassem a droga onde era ordenado.

As informações revelam que estas mulheres são vítimas do sistema, vítimas do machismo e vítimas de um modelo penitenciário que reproduz nas prisões essa mesma lógica machista. Às mulheres, via de regra, são dados nas penitenciárias os espaços que sobram dos homens. Uma estrutura improvisada, diferente do que acontece em presídios exclusivamente femininos. Neste espaços mistos, as oportunidades de formação costumam ser aproveitadas pelos homens, pois as mulheres são desde logo colocadas em tarefas domésticas, como a cozinha, a limpeza e a lavanderia.

Tudo isso foi pauta da nossa conversa, ocorrida na última quinta-feira (16/08). No entanto, apesar de toda a carga emotiva relacionada ao resgate da memória e à condição atual das apenadas, a conversa foi leve e descontraída. “Só faltou uma cervejinha”, falou uma delas, descrevendo muito bem o clima de intimidade e de “boteco” que criamos.

Nosso próximo encontro será nesta quarta-feira (22/08), às 18h, no Madre Pelletier. As mulheres se comprometeram a conversar com suas colegas e escrever propostas de ressignificação daquelas solitárias, hoje um canil, onde ficavam as presas políticas. Também se organizarão em assembleia para escolher uma representante que dará seu depoimento em nosso ato.

Na despedida, Joyce, a mais jovem das mulheres, com seus 20 anos de idade, deu um forte abraço na companheira Inês Maria Serpa (a Martinha) e disse: “obrigada, viu? Obrigada por ter lutado por nós”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s