Sobre o Livro “Memória, Verdade e Justiça: as Marcas das Ditaduras do Cone Sul”

A abertura do livro “Memória, Verdade e Justiça: as Marcas das Ditaduras do Cone Sul” conta com duas importantes intervenções pessoalmente ligadas ao nosso Comitê: uma música do companheiro Raul Ellwanger, que nos acompanha nas trincheiras desta luta diária, e uma homenagem de Carlos Araújo, apoiador declarado da nossa luta, ao eterno Minhoca (Carlos Alberto Tejera de Ré), que dá nome ao nosso Comitê.

DA MÚSICA (por Raul Ellwanger):

Caminho, Canção e Memória*

Não me peças que me cale
Naquilo que mais eu canto
Das lembranças que me valem
Alegrias e espantos
Tombei morto em meus amigos
Pendurei-me em duras traves
Olfateei o sangue vivo
Nas lajotas sujas, grades
Não me peças que me cale
Meu caminho é que me vale
Flor do caeté floresce
Na imensidão da restinga
Cicatriz, desejo, prece
Na solidão clandestina
Anseio de muitos braços
Querendo mudar a história
Te revejo nestes versos
Caminho, canção e memória
Assim menino senti
A mão sinistra das castas
A perda infinita que mata
O ferro, a dor, a chibata
Bonita canção da vida
Entre amores, sonhos, guerras
No orgulho das feridas
Que ganhamos nesta terra
Não me peças que me cale
Meu caminho é que me vale.

*Dedicada a Carlos Alberto Tejera De Ré, o “Minhoca”.

DA ABERTURA DO LIVRO (por Carlos Araújo*):

Um companheiro, de verdade

— Dá para tirar as algemas?
— Não dá.

Ao entardecer de um dia nublado, frio e com muito vento, no
final do mês de julho de 1972, após uma angustiante travessia do Guaíba
em um pequeno barco do DOPS, algemado, cheguei à Ilha do Presídio,
transferido do Presídio Tiradentes de São Paulo.

Como era de praxe em tais oportunidades, os companheiros
esperavam no portão do prédio do presídio. Após os cumprimentos
habituais, todos queriam saber das novidades, de como se encontravam
os demais companheiros presos, qual era a análise da conjuntura, etc.

Na longa troca de ideias que se seguiu, salientou-se um jovem
impetuoso, perguntador e opiniático. Também, irreverente. De uma
irreverência diferente, mesclada de afetuosidade. Foi assim que conheci Carlos
De Ré nos seus 21 anos de idade. Naquele momento nasceu uma amizade
que com o tempo iria se transformar em um verdadeiro companheirismo.

No De Ré a postura política vinha sempre irmanada com forte
dose emocional. Esta explosiva combinação, no entanto, nunca turvou sua
lucidez nem arrefeceu sua dedicação à luta. Inconformismo, lucidez, coragem,
honradez e afeto integravam sua inconfundível bagagem ideológica.

De Ré foi, sobretudo, um combatente. Um combatente de
refregas intermináveis, de horizontes inatingíveis e de amores eternos.
Um militante das causas justas, um militante do mundo.

Nos últimos tempos, dizia-me sempre:
— Eles destruíram a Constituição do Brasil!
— Nós defendemos a democracia.
— Nós fomos condenados.
— Eles não foram julgados.

Por certo, ainda há muito que trilhar pelas veredas da democracia.

* Carlos Araújo é advogado, ex-deputado estadual, ex-dirigente político da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), preso e torturado no período da ditadura civil-militar.

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O livro “Memória, Verdade e Justiça: as Marcas das Ditaduras do Cone Sul” traz uma série de depoimentos de pessoas que resistiram à ditadura, lutaram e lutam pela democracia, contra o esquecimento. É inteiramente dedicado ao Minhoca, desde sua primeira página, na qual consta:

“Ao companheirão Minhoca
(Carlos Alberto Tejera De Ré),
que lutou contra a ditadura,
a tortura
e o esquecimento,
e nunca perdeu a ternura!
Jamais!”

O livro está disponível em PDF: Memoria, Verdade e Justica (web)

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